Melhor Impossível: Dizem diretores da Rede Latino Americana sobre Floresta Modelo Amazonas Tapajós.
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Melhor Impossível: Dizem diretores da Rede Latino Americana sobre Floresta Modelo Amazonas Tapajós.

Por: Jackson Rêgo Matos – IBEF/UFOPA & Franciane Santana Matos – IESPES

 

Foto 01: Samaúma em área restaurada na vila do Cucurunã.

Imagem: ICT (Cabana do Tapajós)

Melhor impossível! Esta foi a frase que os representantes da Rede Latino Americana de Bosques Modelos, Fernando Carrera e Max Yamauchi disseram ao se despedirem da visita que fizeram ao território ainda em formação da FLOMAT – Floresta Modelo Amazonas Tapajós.

Iniciando a visita na atual sede do IST (Instituto Sebastião Tapajós), os diretores puderam compreender a interação entre a cultura, a natureza e o saber local. Tendo como nossos legítimos representantes, Nato Aguiar e Gonzaga Blantez, usaram o violão do Tião para tocarem e cantarem o amor ao Rio, a Floresta e a Amazônia. Junto a amigos e familiares, Dona Tânia Tapajós fez as honras da casa e deu as boas vindas aos dois que vieram da Costa Rica. Estes casas puderam conversar com pesquisadores e amigos do IST sobre as diversas questões e explicar quais os objetivos da viagem e o que pretendem em relação a parceria futuras para temas como restauração florestal, governança participativa da paisagem e recursos naturais, empoderamento feminino, e como o Instituto e outros interessados podem se envolver nestes assuntos a partir dos princípios das Florestas Modelo e da Flomat. 

Foto 02: Familiares e amigos do IST.                                                  Imagem: Elivaldo Reis

Na manhã da segunda, 28/02, com todo o apoio do SFB (Serviço Florestal Brasileiro) e logística organizada pelo Projeto de Extensão da UFOPA, Luz e Ação da Amazônia e a Cabana do Tapajós, seguiu-se para o município de Belterra, passando pelo espaço Katumawa iwi na Vila de Alter do Chão, onde a educadora Luciene Santos, mostrou seu trabalho Saúde da Terra, com inúmeras plantas medicinais e os ritos de cura que são realizados de forma natural, assim como o canto de união do paneiro.    

Foto 04: Espaço Saúde da Terra em Alter do Chão. Imagem: ICT (Cabana do Tapajós)

Já em Belterra, foi mostrado o trabalho realizado pelo Campo em Movimento, liderado pela agricultora Lindalva Souza, com seus quintais agroflorestais onde muitos produtos da agrobiodiversidade vem ganhando mercado, principalmente aos sábados pela manhã na feirinha ecológica de Alter do Chão. Esta cooperada nos informou que solicitou a estrutura que está em desuso na comunidade de Revolta, para que seja montada em parceria com a direção do IBEF. Uma parte seria instalada no sítio de um cooperado e outra no terreno da cooperativa, garantido que os alunos da UFOPA possam realizar estágios, monografias e pesquisas. Está em negociação o futuro da estufa, o que seguramente irá alterar os rumos da produção neste município e ajudar na relação universidade/sociedade.

Foto 05: Estufa na comunidade de revolta e a revindicação de parceria com a UFOPA

Imagem: ICT (Cabana do Tapajós)

Ainda em Belterra pudemos visitar as duas áreas da EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, áreas estas com grandes estudos científicos em que as produções de cientistas como Natalino Silva, Noemi Leão, Silvio Brienza, João Olegário, João do Carmo, Milton Kanashiro e tantos outros da Ciência Florestais, encontram-se ameaçados por invasão e descaso governamentais. Apesar do grande esforço e dinamismo da Dra Lucietta, quem vem contribuindo com a formação de recursos humanos qualificados para a conservação da Amazônia e coordenadora do núcleo da Embrapa na região, vimos o quanto o avanço da soja tem sido devastador para essas áreas e para a população do município. Assim, a parceria entre pesquisadores nacionais e internacionais pode ser decisivo para se estabelecer o fim deste ciclo e o surgimento de um novo ciclo econômico pautado nos princípios da Flomat que são: 1 – Associação; 2 – Paisagem; 3 – Sustentabilidade; 4 – Governança; 5 – Programa de atividades e 6 – Transferência de conhecimentos, além da sócio-bio-economia circular e integrativa.     

Foto 06: Área de 227 ha de grande importância científica mundial da Embrapa em Belterra.

Imagem: ICT (Cabana do Tapajós)

O grande contraste entre os modelos de desenvolvimento que vem sendo aplicados na região pode ser vislumbrado na visita à Floresta Nacional do Tapajós. Tomando como base o centro de Belterra, observa-se a guerra instalada entre as culturas do Sul e a Cabocla. Como exemplo, as antigas donas de uma das últimas áreas de floresta, vendida a pouco tempo porque se encontravam ilhados entre os plantios de soja e uso de agrotóxicos e fertilizantes. O casal vendeu seu sítio de 16 ha por R$ 31.000,00 porque tudo que plantavam não dava mais certo.  Dois meses depois, já não tinham mais nada.

Na Flona do Tapajós, na comunidade de Maguary, seu Joaquim e dona Maria acreditaram no Ecoturismo. Hoje, seu filho Jó vive da floresta em pé e mantém com muita responsabilidade o conhecimento ancestral que herdou de seus pais, sendo guia de turismo de quem vem conhecer a árvore centenária e já famosa, Samaumeira.

Algumas ações como o MUCA (Museu de Ciências da Amazônia) vem sendo trabalhados e alguns antigos moradores da cidade histórica vem empreendendo atividades como é o caso do “platô”, espaço ambientado pela Professora Laura, atual moradora da casa onde se hospedou Getúlio Vargas. A casa Número 1 da vila vem sendo restaurada e aguarda novidades. Entretanto os 22% de área da APA do Aramanaí desafetada pelo atual prefeito ainda são uma incógnita, pois, apesar de se ter projetos traçados em conjunto com o Instituto Butantã, são observadas fazendas com grandes criações de gado. A questão que concluímos é que, para além de pensar projetos de restauração, é urgente que se implementem fortes estratégias para frear o desmatamento nesse território.

Foto 07: Floresta Nacional do Tapajós e os enigmas da trilha da Vovozona Samaúma.

Imagem: ICT (Cabana do Tapajós)

 Já de volta a paradisíaca Alter do Chão, ainda é bastante expressiva a quantidade de verde e casas tradicionais com seus quintais com árvores centenárias. Bairros como Caranazal, Jacundá e até os bairros novos, frutos de processo de gentrificação, guardam a herança da ancestralidade Borari. Na Cabana do Tapajós, pudemos ter uma aula com o Mestre Griô Chico Malta sobre Carimboterapia e toda a expressão desta arte.

Foto 08: Chico Malta e sua família: aula de Carimbó na Cabana do Tapajós.

A Escola da Floresta é a área mais representativa de uma história natural e do saber tradicional em Alter do Chão. Guiados pela Dona Raimunda, os representantes da RLABM tiveram uma aula sobre a relação entre cultura e natureza e os projetos ali já desenvolvidos, além de contemplarem as espécies da floresta, aves e mamíferos como o Calitrix argentata, endémicos da savana de Alter do Chão.

Foto 09: Escola da Floresta: visitando projetos e ações inovadoras

Imagem: ICT (Cabana do Tapajós)

Ainda na APA e seu entorno, foram explicitados os problemas relacionados com o incêndio de 2019 e espaços como o do Manejo do Açaí na comunidade de Santa Luzia, ainda permitindo saborear a galinha caipira e o Açaí do Paulo.

Os debates semi presenciais e on-line realizados em conjunto com o SFB sobre os potenciais das Florestas Modelo em quanto modelos de governança participativa tiveram ampla participação. Por outro lado, uma atenção especial à situação da Praça Rodrigues dos Santos foi dada, onde a presidente do IHGTap (Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós), Professora Terezinha Amorim, falou in loco da atrocidade cometida pelo atual prefeito de Santarém ao destruir o Sítio Aldeia, um dos mais importantes da América Latina, para construir um camelódromo no local. Este fato decisivo para a cultura indígena recebeu a atenção também de Marcelo Melo do SFB e do ex-secretário de meio ambiente de Santarém, Podalyro Neto.

Foto 10: Sítio Aldeia e a contradição entre a memória e a destruição.

Imagem: ICT (Cabana do Tapajós)

Ao debatermos em profundidade as nossas contradições, vimos os contrastes entre tanta riqueza natural e socioecultural e a destruição da mesma. Por um lado, temos inúmeros trabalhos científicos, ações de ONGs como o PSA, IPAM, IMAFLORA, Parques de interesses mundiais como o agora reconhecido PEMA (Parque Estadual de Monte Alegre),  a  riqueza ambiental, antropológica e cultural de Santarém, como as Apas do Saúbal, a proposta de se transformar o Juá em Refúgio Urbano da Vida Silvestre, a criação do Parque Natural da Rocha Negra, o Monumento Natural da Capadócia, o Saber do seu Chutico da Comunidade de Santa Cruz e das mulheres produtoras de óleo de andiroba na Comunidade de São Domingos, os tesouros vindo da lição que o paneiro ensina. Por outro lado, a poluição da cor barrenta do Rio Tapajós, contaminação pela mineração ilegal e desmatamento banalizado. Vez por outra, escutávamos uma expressão que vinha espontaneamente em forma de perplexidade dos diretores da RLABM: “Não acredito!”.

Entretanto, após conhecerem as ideias da Denize Rodrigues da Tribo do Sol, do Juiz do Çairé Osmar Vieira, saberem das histórias de seu Maraca e dona Rosa, encantarem-se com o Encontro das Águas, saberem das histórias de nossos imortais como seu Hélcio Amaral, contadas pelo Podalyro, a de uma trabalhadora da pesca dos lagos e rios, a Iracilda Tapajós, ao saborearem nossos deliciosos Tambaqui e Pirarucu no restaurante da Tica no Igarapé-Açú, nas próximidades do Encontro das Águas do Amazonas com o Tapajós, esses visitantes  demostraram a sua admiração com o rosto humano de nossa realidade e da força demostrada pelo povo local. Assim, suas últimas palavras ao se despedirem em direção à Bahia e ao Pantanal, foram: “Melhor Impossível”, o Tapajós é “pura vida”.

Foto 11: Despedida com agentes do meio ambiente no CIAM.

Fotos: Imagem cedidas pelo ICT (Cabana do Tapajós)

A recomendação que nos deixam é sobre a necessidade de realizar um diagnóstico aprofundado da área da Floresta Modelo, com um mapeamento extensivo dos diferentes atores que tem interesse e impactam no territorio. A partir disso, se inicia, de forma participativa, um processo de sensibilização e planejamento estratégico para a conformação e funcionamento da Floresta Modelo Amazonas Tapajós como plataforma de governança territorial para a gestão sustentável dos recursos naturais. Haja trabalho, envolvimento e mobilização. O fundamental é que temos nossas metas e o dever com a conservação da floresta, nossa cultura e nosso povo. A palavra resume-se em UNIÂO.

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